Por que Hackathons ainda são importantes: a experiência do primeiro hackathon legislativo global

Resolvemos começar esse post pelo final, ou seja, a conclusão. Contra a maré na Internet, decidimos fazer um texto longo dessa vez. Então, se você não tem paciência para ler até o final, ou quer deixar “para um dia quem sabe”, pelo menos já conhece a nossa mensagem principal logo de cara. 

CONCLUSÃO

Embora “na moda” no Brasil, hackathons estão bem desgastados mundo afora como modelos efetivos de colaboração entre Estado e sociedade. Os problemas de hackathons já são bem conhecidos: resultam dali geralmente protótipos que não funcionam muito bem; não há sustentabilidade na maioria dos projetos, sendo boa parte descontinuada depois do evento; o engajamento de “hackers” é cada vez menor nesse tipo de atividade; e por aí vai. Por isso, temos pensado em outros modelos de colaboração com a sociedade, tais como o Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã, organizado pela Secretaria Ibero-Americana. Mas resolvemos pagar para ver no hackathon do Chile, maratona realizada entre os dias 28 e 30 de junho.

Dessa vez, depois de algumas lições aprendidas dos hackathons de 2013 e 2014 que fizemos aqui na Câmara dos Deputados, resolvemos tentar algumas cositas novas (pelo menos pra gente!): construímos um repositório (pad) de muitas informações úteis, inclusive para os outros hackathons em legislativos de qualquer lugar; incluímos o trabalho remoto nessa edição; fizemos uma sessãozinha preliminar ao hackathon no Labhacker para esquentar os tambores; e o prêmio foi um estágio de uma semana aqui com a gente para continuar os projetos. 

Ao final dessa maratona hacker no Chile, apresentamos os projetos para o plenário da Conferência Internacional de Parlamento Eletrônico, que acontecia ao lado do hackathon, composta principalmente por parlamentares. Após os aplausos (yes!), vários parlamentares e funcionários de parlamentos nos procuraram dizendo que, enfim, entendiam o papel dos dados abertos e da importância de nutrir atividades que estimulam o trabalho colaborativo entre parlamento e sociedade. 

Assim, o maior capital adquirido neste primeiro hackathon legislativo global foi o de comunicação. Incrível a experiência de ter um intercâmbio tête-à-tête entre parlamentares do mundo todo e hackers. Eles puderam conhecer uma nova maneira de trabalhar, extremamente colaborativa, pautada nos valores de transparência e participação, e que empodera o cidadão a participar na construção do parlamento que deseja. 

COMEÇO

Agora voltando para o início de tudo e explicando melhor. A cada dois anos, ocorre o World e-Parliament Conference. Dele participam parlamentares, funcionários de parlamentos e membros de ONGs de todo mundo para discutir como tornar parlamentos mais inovadores e preparados para enfrentar os desafios do Século XXI, principalmente por meio das novas possibilidades oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação (por isso o “e-Parliament” no nome). Cada edição é realizada em um país diferente (as três últimas foram na África do Sul, Coréia do Sul e Itália), organizada pela Inter-Parliamentary Union. Neste ano, a conferência aconteceu na Câmara dos Deputados do Chile, em Valparaíso. 


Encontre os hackers desta foto

Como ventilado lá em cima, foi nessa conferência onde se realizou a Maratona Hacker da qual estamos falando. Nós, aqui do LabHacker da Câmara, fomos convidados a coordenar esse Hackathon, já que fizemos eventos semelhantes aqui na Câmara em 2013 e 2014 (reveja aqui: Hackathons da Câmara). 

A experiência de fazer um Hackathon internacional voltado para Parlamentos — dentro de um Parlamento — e com pessoas do mundo inteiro nos acompanhando… essa era uma oportunidade rara! A decisão de fazer o Hackathon veio aos 45 do segundo tempo, com poucas semanas de antecedência. Um evento desses demanda divulgação ampla, tempo para resolver os trâmites burocráticos, receber as inscrições, selecionar projetos, etc. Mas topamos o desafio, com uma pulga atrás da orelha, no entanto. Por isso, contamos com bastante ajuda: da Inter-Parliamentary Union, do National Democratic Institute, da Câmara dos Deputados do Chile e de alguns colaboradores remotos. 
 


Essa frase assustou um pouco o pessoal: “hora de hackear o Parlamento”

Neste Hackathon, quisemos democratizar a participação (principalmente levando em conta o curto tempo que os grupos tinham para se organizar!). Grupos puderam participar tanto presencial quanto remotamente. Para permitir a comunicação para todos (mas principalmente para os grupos remotos), usamos duas ferramentas: um grupo no Telegram e um pad colaborativo. 

No pad colocamos recursos para ajudar cada um a se situar: composição dos grupos, links de projetos interessantes, inspirações, um guia passo-a-passo de como participar. O grupo, que foi criado para comunicações rápidas entre os participantes, permanece ativo até hoje. Será que não é o início de uma rede internacional de hackers/colaboradores de tecnologias disruptivas para parlamentos? Se quiser participar lá, entre no grupo! 

O evento teve três trilhas de participação: transparência, participação social e categoria aberta. Na primeira, os projetos que facilitam a compreensão do trabalho legislativo por parte do cidadão, reinterpretando a informação de uma maneira diferente. Na segunda, o desenvolvimento ou aprimoramento de projetos de participação, tal como o wikilegis. E na terceira, qualquer outro projeto relacionado ao trabalho dos Legislativos.
 
 
O experiente hacker Pedro Markun (o quarto da direita para a esquerda) ajudou a montar os grupos de participantes em cima de projetos pequenos e viáveis de serem realizados em 3 dias.

Em cada um dos 3 dias de evento, o coordenador do Laboratório Hacker, Cristiano Ferri (um dos que vos fala aqui!), dirigiu-se aos participantes da conferência para informá-los do andamento dos trabalhos que ocorriam na sala ao lado. Isso, claro, despertou interesse pela novidade. Recebemos visitas de vários parlamentares, funcionários de parlamentos e outros curiosos. Foi uma via de mão dupla: eles puderam testemunhar o trabalho colaborativo e nos ensinar um pouco sobre a atuação deles. Uma vivência rica para os dois lados. 


Parlamentares como o Deputado Ramón Farias, da Câmara chilena, anfitriã do evento, veio conhecer os projetos

CONECDADOS

Antes de realizarmos o hackathon, consideramos que seria interessante arar o campo das ideias. Tivemos a ideia de fazer uma sessão de brainstorm para conversar com mais calma, sem a pressão de ter de começar a trabalhar logo nos projetos. A ideia foi de levantar alguns questionamentos e possíveis abordagens que poderiam ser adotadas pelos projetos. Convidamos pessoas com experiências bem distintas de alguns órgãos da Câmara, em especial do Centro de Informática, bem como do Senado, Interlegis, além de acadêmicos e hackers interessados.

Deste singelo evento surgiram várias ideias. Transcrevemos algumas abaixo: (acesse o nosso pad para ver a íntegra!):

  • Mapear como os parlamentares usam os recursos a eles oferecidos;
  • Mapear as atividades institucionais dos parlamentares, por meio de dados como presença, votos e discursos;
  • Comparar recursos, infraestrutura e inovação que os parlamentos oferecem;
  • Mapear o papel de partidos no parlamento;
  • Acompanhar a participação parlamentar no orçamento e os resultados de emendas por eles apresentadas;
  • Mapear o nível de transparência de portais legislativos;
  • O que faz um bom parlamentar?

Percebemos que várias dessas questões foram trabalhadas nos projetos. Confira a lista dos projetos ao final do post.

PROJETOS

A primeira manhã foi preparatória e os projetos precisavam ser apresentados no início da tarde do terceiro dia. Na prática, os grupos tiveram cerca de 2 dias para trabalhar nos projetos. É um tempo bastante exíguo. Além disso, não tivemos um número de inscritos presenciais muito grande.

Apesar disso, o resultado do Hackathon surpreendeu positivamente. Foi uma oportunidade de desenvolver funcionalidades em projetos já existentes (Wikilegis e Olho nas emendas), experimentar com uma forma diferente de interação com as leis (X-Ray da Lei), trabalhar com visualizações (Comparación legislativa, Evolução social e visualização de legislação no Reino Unido, Menções à sua região no Congresso Nacional do Chile, Infoley), destrinchar algum aspecto técnico (Fmx2Akn), trabalhar uma nova forma de educar o cidadão (Educação parlamentar para o cidadão usando Kinect do XBox). O leque de resultados foi interessante e bastante diverso.

Veja a lista completa dos projetos:
 
Olho nas emendas: O Olho nas emendas permite ao cidadão acompanhar a execução das emendas parlamentares. Esse projeto, que já vinha sendo desenvolvido, teve uma série de melhorias durante o Hackathon. Projeto desenvolvido remotamente. Link: http://olhohnasemendas.com.br/
 
Comparación legislativa: Comparação entre o processo legislativo do Chile, do Paraguai e da Argentina em diferentes aspectos, como tempo de tramitação e número de sessões. Link: https://extranet.camara.cl/legislativeComparative/
 
Evolução social e visualização de legislação no Reino Unido: Visualização dos atos públicos aprovados no Reino Unido em forma de timeline mapeada  por assunto. Utiliza dados abertos do legislation.gov.uk e utiliza tecnologias que automatizam o processo. Projeto desenvolvido remotamente. Link: http://sinatra.cirsfid.unibo.it/socievole/home
 
Fmx2Akn: Sistema para extrair dados do repositório CELLAR (repositório central de publicações da União Europeia) e convertê-los para Akoma Ntoso. Projeto desenvolvido remotamente.  
 
Menções à sua região no Congresso Nacional do Chile: Computa quantas vezes nomes de regiões foram mencionados no Plenário e publicados no diário da Câmara chilena  em forma de visualização. http://datos.bcn.cl/global-legislative-hackathon-2016/Hackaton/www/html/master.html 
 
Infoley: https://parlamentoelectronico-cloned2-matcort.c9users.io/
(link fora do ar no momento da publicação)
 
Educação parlamentar para o cidadão usando Kinect: Projeto que utiliza o Kinect como meio de educar jovens sobre o trabalho parlamentar.
 
Preparação do Wikilegis para países de língua espanhola: o Wikilegis é uma ferramenta para edição colaborativa de textos legislativos, desenvolvido aqui no Laboratório Hacker. Um dos projetos tratou de aplicar uma série de modificações (inclusive traduzir) de forma que se torne apropriado ao uso em Parlamentos de língua espanhola.
 
X-Ray de la Ley: Protótipo de aplicativo para Android que permite a visualização de legislação no celular. O aplicativo possui um scanner de QR code para redirecionar o usuário diretamente a determinada legislação. Assim, permite-se uma conexão lúdica entre objetos do cotidiano e textos legislativos, facilitando ao usuário compreender a aplicação da legislação na prática. https://parlamentoelectronico-matcort.c9users.io/ (link encontra-se fora do ar no momento da publicação)

Post por Cristiano Ferri e Pedro Brandão

 

Pedro Brandão

Pedro Brandão

Cientista da computação, apreciador de cervejas artesanais, das artes e de gastronomia. Servidor efetivo do Laboratório Hacker.

 

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